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Categoria: Lendas e Costumes
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No século XIII, Mouramorta pertencia ao concelho do Moção e era terra «regalenga». No XVI, cerca de 1537, tinha 23 moradores. Era o tempo em que por estas bandas da serra do Montemuro, como dirão mais tarde as «Memórias Paroquiais» de 1758, não proliferavam «homens ilustres em letras e armas».

Reza a lenda da «moura encantada», aquela que, segundo a tradição, vivia oculta nas redondezas da aldeia e que, depois de morta e sepultada na capela de S. Tiago, sita ao fundo da aldeia, ao lado do caminho da Chandeira, lhe legou o nome. Ei-la:

            «Era uma pastora que, pastoreando o seu rebanho na serra, lá para os lados das Decímas (acentuámos o í para a palavra se não confundir com décimas, com acento no é), apareceu-lhe uma linda e estranha mulher que, não tendo embora aspecto faminto, lhe pediu uma malguinha de leite das suas cabras. Solícita, a pastora retirou da cesta da merenda, produto artesanal local, em verga, onde também tinha sempre as agulhas e os novelos para fazer meias e camisolas, a malga que ela própria utilizava, no monte, para uma refeição ligeira. Espremidos os tetos da cabra com o amojo mais volumoso, encheu a malga do apetitoso, espumoso, leite quente, alimento que logo entregou à estranha e desconhecida personagem.

Esta agradeceu-lhe a gentileza e disse à pastora para não se demorar ali enquanto ela bebia o leite. Que continuasse a apascentar o gado. Que de regresso lá encontraria a malga. Que levasse para casa o que estivesse dentro dela.

       Assim foi. Dada a volta, a pastora, chegada ao local encontrou dentro da malga três bugalhos de carvalho. Ficou surpreendida e desiludida. Que ingratidão! A mulher mangara dela ao recompensá-la daquela maneira. Antes não deixasse nada. Bugalhos de carvalho, fruto de árvores abundantes na zona, tinha ela aos pontapés. Deitou dois bugalhos fora e, por comodismo seu, guardou um para comecilho de novelo, pois uma dobadoira a aguardava à noite, em casa, com meada posta.

            No serão, ao pegar novamente no bugalho, foi o espanto. Ele estava transformado numa peça de ouro. Enganara-se julgando mal a desconhecida. Ela era, afinal, uma moura encantada. Senhora de oculto tesouro quisera partilhar com a pobre pastora as riquezas acumuladas e retidas sem proveito. A pastora reconheceu o erro, mas era tarde para repará-lo.

Contou o sucedido à família, aos amigos, a toda a gente e todos se maravilhavam com o que aconteceu».

 Estava criada mais uma lenda de uma «moura encantada». O insólito acontecimento atravessou séculos e chegou aos nossos dias. De múltiplas versões, eis aquela que recolhemos no ano de 1986, juntamente com os registos que giram em torno dos mouros, somando a campa cavada num penedo, a cerca de 3 quilómetros da povoação, para os lados de nordeste, a mais ou menos trinta metros do lado esquerdo do caminho que liga Mouramorta ao Mezio, na base do outeiro das Decímas.

Autor: Abílio Pereira de Carvalho, do meu livro «Lendas de Cá, Coisas do Além», ed. em 2004

In Sitio na Web “trilhos serranos”

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